JORNALISMO E DEMOCRÁCIA: IRMÃO SIAMESES
(*) AUREMACIO CARVALHO
Não há democracia sem a livre circulação de opiniões, sem o debate público e você não consegue fazer isso sem ter uma imprensa livre e diversificada. Quanto melhor o jornalismo, melhor a democracia. Do lado oposto, a primeira coisa que precisa ser suprimida para acabar com a democracia é a liberdade de informação. Então as coisas estão muito ligadas.O jornalismo vive uma contradição porque ele é um direito inerente às pessoas, à democracia, mas, é também uma indústria. E os grandes jornais, as grandes revistas e as grandes cadeias de televisão são empresas que querem lucro, e têm interesses políticos. O espaço público é um espaço de disputa permanente de grupos de interesse e também um campo de divergências ideológicas naturais, legítimas. Então, uma certa dose de manipulação é praticamente intrínseca ao jornalismo, que por sua vez é uma atividade muito subjetiva: não existe uma verdade sobre os fatos, existem maneiras de vê-los. Por isso, sempre prego, do ponto de vista do jornalismo, a necessidade da honestidade. Você pode tratar o fato como quiser, desde que seja honesto, não distorça a informação. No caso brasileiro, o que acontece hoje é que a imprensa está fazendo tantas jogadas – desonestas – que ela se descolou completamente da realidade. Nas notícias atuais, tudo aparece como negativo, enquanto a vida do povo está melhorando. Nesses casos, quando as informações veiculadas na mídia estão muito descoladas da realidade, a mensagem não é aceita, e a mídia destrói sua própria influência porque exagerou na manipulação.Precisamos recriar a demarcação entre público e privado. Brasil ainda vai assistir à democratização da mídia? essa expressão é equivocada. Você não democratiza a mídia. A mídia são os veículos. É preciso, sim, democratizar o mercado: não se pode permitir o monopólio, o oligopólio, o cartel, o acúmulo de propriedade de concessões, que a lei proíbe. Isso é o que tem que ser feito. O resto é por conta da sociedade civil. E nesse aspecto, a sociedade civil avançou muito. Se você for a uma banca de jornal, você vê a enorme quantidade de publicações. Por trás dos jornalões, das grandes emissoras, existe uma explosão de mídias. A imprensa hoje é muito heterogênea. Você tem revista de filosofia, de esporte, de turismo, de moda, várias de história, de ciência, de tudo o que você possa imaginar. Tem a internet. E isso é mídia, muito mais diversa do que há dez anos. Além disso, há um pouco mais de massa crítica. A mídia se transformou não apenas num importante ramo de negócios como passou a exercer imenso poder sobre políticos e instituições políticas, provocando desse modo uma perigosa perversão no funcionamento da democracia. Dentro desse novo mundo, como observa o autor, o futuro dos jornalistas como grupo profissional está também em causa, já que, inevitavelmente, começam a ser envolvidos pela gigantesca onda mercantilista que invade e contamina todo o sistema, “com evidentes repercussões em aspectos como a comercialização da informação”.Seja como for, a verdade é que a mídia se transformou em peça fundamental de dominação política, social, cultural e ideológica, não só por parte dos países mais poderosos, mas também das classes dominantes sobre as outras que constituem a maioria das populações. É irônico — para não dizer trágico — ver que esses meios extraordinários, proporcionados pela mídia, estão cada vez mais a serviço de estratégias de mercado, quando, num mundo ideal, poderiam servir à educação, ao desenvolvimento da cultura e ao melhor conhecimento entre os povos.Se jornalismo e democracia compartilham os mesmos ideais, está na hora de começarmos a discutir o futuro da mídia.
(*) AUREMACIO CARVALHO
Não há democracia sem a livre circulação de opiniões, sem o debate público e você não consegue fazer isso sem ter uma imprensa livre e diversificada. Quanto melhor o jornalismo, melhor a democracia. Do lado oposto, a primeira coisa que precisa ser suprimida para acabar com a democracia é a liberdade de informação. Então as coisas estão muito ligadas.O jornalismo vive uma contradição porque ele é um direito inerente às pessoas, à democracia, mas, é também uma indústria. E os grandes jornais, as grandes revistas e as grandes cadeias de televisão são empresas que querem lucro, e têm interesses políticos. O espaço público é um espaço de disputa permanente de grupos de interesse e também um campo de divergências ideológicas naturais, legítimas. Então, uma certa dose de manipulação é praticamente intrínseca ao jornalismo, que por sua vez é uma atividade muito subjetiva: não existe uma verdade sobre os fatos, existem maneiras de vê-los. Por isso, sempre prego, do ponto de vista do jornalismo, a necessidade da honestidade. Você pode tratar o fato como quiser, desde que seja honesto, não distorça a informação. No caso brasileiro, o que acontece hoje é que a imprensa está fazendo tantas jogadas – desonestas – que ela se descolou completamente da realidade. Nas notícias atuais, tudo aparece como negativo, enquanto a vida do povo está melhorando. Nesses casos, quando as informações veiculadas na mídia estão muito descoladas da realidade, a mensagem não é aceita, e a mídia destrói sua própria influência porque exagerou na manipulação.Precisamos recriar a demarcação entre público e privado. Brasil ainda vai assistir à democratização da mídia? essa expressão é equivocada. Você não democratiza a mídia. A mídia são os veículos. É preciso, sim, democratizar o mercado: não se pode permitir o monopólio, o oligopólio, o cartel, o acúmulo de propriedade de concessões, que a lei proíbe. Isso é o que tem que ser feito. O resto é por conta da sociedade civil. E nesse aspecto, a sociedade civil avançou muito. Se você for a uma banca de jornal, você vê a enorme quantidade de publicações. Por trás dos jornalões, das grandes emissoras, existe uma explosão de mídias. A imprensa hoje é muito heterogênea. Você tem revista de filosofia, de esporte, de turismo, de moda, várias de história, de ciência, de tudo o que você possa imaginar. Tem a internet. E isso é mídia, muito mais diversa do que há dez anos. Além disso, há um pouco mais de massa crítica. A mídia se transformou não apenas num importante ramo de negócios como passou a exercer imenso poder sobre políticos e instituições políticas, provocando desse modo uma perigosa perversão no funcionamento da democracia. Dentro desse novo mundo, como observa o autor, o futuro dos jornalistas como grupo profissional está também em causa, já que, inevitavelmente, começam a ser envolvidos pela gigantesca onda mercantilista que invade e contamina todo o sistema, “com evidentes repercussões em aspectos como a comercialização da informação”.Seja como for, a verdade é que a mídia se transformou em peça fundamental de dominação política, social, cultural e ideológica, não só por parte dos países mais poderosos, mas também das classes dominantes sobre as outras que constituem a maioria das populações. É irônico — para não dizer trágico — ver que esses meios extraordinários, proporcionados pela mídia, estão cada vez mais a serviço de estratégias de mercado, quando, num mundo ideal, poderiam servir à educação, ao desenvolvimento da cultura e ao melhor conhecimento entre os povos.Se jornalismo e democracia compartilham os mesmos ideais, está na hora de começarmos a discutir o futuro da mídia.


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