O português da modernidade
A energia, a vivacidade e adaptabilidade da língua portuguesa no Brasil tem a ver com o fenómeno cultural que se define como "personalidade modal".
A língua de um povo não é apenas veículo de comunicação, mas mesmo um Rorshack nacional. É, simultaneamente, registo conceptual e pragmático em que se espelha o percurso histórico da sua gente e a sua evolução na jornada da modernidade.
No idioma reflectem-se a capacidade de adaptação planetária e ambiental do grupo e a sua habilidade de sobrevivência. Por isso as línguas também se podem observar em termos de processos darwinianos. Como as espécies que se perderam pelos caminhos da extinção, a linguagem projecta o futuro dos povos que neles se exprimem.
As línguas artificialmente tesas, arrogantes, impassíveis como estátuas revelam características conservadoras e imóveis, paranóicas e narcisistas dos seus falantes. Por outro lado, os idiomas irrequietos, activos na busca de significado e expressão simultaneamente abstracta e precisa possuem alegria, um charme persuasivo e mesmo sedutor.
O inglês como o falam os americanos ultrapassou a rigidez militar dos comandos anglo-saxónicos. Transformou-se no linguajar de um povo cheio de iniciativa, modificador do percurso do pensamento social e científico à escala planetária e da expressão de uma liberdade que lhe deu o lugar cimento na literatura, na arte, na ciência, na economia. Diz I love you (amo-te) e kiss me please (beija-me por favor) com afecto e doçura.
Assim é o português brasileiro, inaugurando vocábulos na rua para a gente se compreender sem a rigidez da aristocracia burocrática da academia e o etnocentrismo da assembleia política. Cria verbos sonoros, elegantes e práticos, petulantes por vezes, onde os substantivos antes saíam à rua, sós, nas frases longas, desnecessariamente longas e complexas, morosas. Uma sintaxe sujeita às regras confinantes e não raro desnecessárias de normas sociais e elitistas. Esse português vivo, estimulante, retrata a alegria de viver, a pujança no trabalho e na modernidade, o Brasil-potência-mundial que possui a coragem e ousadia de terçar ideias com outros povos, de expandir e dar significado cultural e económico, artístico e científico, à concepção da modernidade.
O português de Portugal recorda os galeões dolentes que deixaram nas praias orientais o pranto inconsolável, o papiá-cristão, abandonado, de populações marcadas nos traços fenotípicos e híbridos e nos genes resilientes dos mercadores de gente engolida pelo horizonte. Fala na TV como um soldado de chumbo, hirto como o cabelo banhado na brilhantina antiga. Conversa com maneirismos complexados, autoritário na interacção social e mesmo na comunicação governamental. Sua Excelência o Português é pretérito lacrimoso na voz embargada, plangente, do fado vítima do machismo, da explora- ção sexual e económica da mulher.
Em contra partida, o português do Brasil dança na rua. É cara risonho, engenheiro apressado, vaqueiro de camião gigante made in Brazil. Está na letra do samba bamboleante e atrevido, descomplicado. Expressa ritmo crioulo na música com seu falar sem hierarquia que o Você submergiu. Fala de amor e ternura no abraço de fenótipos na génese que os portugueses antigos criaram nos trópicos de Gilberto Freyre. É escrita de comércio possante, código fonológico e popular no jornal e voz cadente na rádio divulgando a notícia. Usa-o a moça desempoeirada, igualzinha ao homem no direito que antes a escravizou, nocauteante num bikini moreno em praia morna onde o machismo está acabando.
Roma morreu e o latim se enterrou nas igrejas. Fecham-no na clausura de pedras veneráveis e anciãs de monumentos guardando ecos côncavos nas abóbadas imperiais e distantes. Como as pirâmides dos faraós, em que cada eco subterrâneo parece enclavinhar à terra, desesperadamente, o desejo de todos os tempos no universo geracional de se ultrapassar a barreira misteriosa da eternidade para além da morte.
O português vai sobreviver, ainda que humilhado na Europa, reduzido à subserviência política e económica ao alemão e ao francês, ao inglês de sua majestade britânica. Vai perdurar, sim-senhor, nas chancelarias mundiais e nas universidades dominantes com sotaque brasileiro. Será língua dominante no comércio, de diplomacia, de estudo e difusão cultural e científica - graças ao Brasil.
No acordo ortográfico acerca do qual em Portugal se resmungou entre os dentes, paulatinamente, se o país deveria ou não aceitar, no desfecho dialéctico imperou a noção pensada da realidade. Na decisão política manifestou-se uma compreensão actualizada, decerto atenta ao resultado lógico dos processos de adaptação com que se conceptualiza o futuro no contexto do interesse nacional no embate nem sempre claro de forças globais.
Será de benefício actual e sobretudo futuro visualizar os povos falantes do português nos termos em que o Brasil se vê lusíada ou "filho de Portugal". Para que em décadas ainda vindouras se possa comunicar em português entre povos em cujo seio se identificam na História os actores da epopeia portuguesa num sentido social. E se edifique e fortaleça pelo Mundo um bloco de países irmanados por vínculos rijos que o modo de expressão comum cimenta, cada um com um léxico próprio ocasionado pelas peculiaridades específicas da cultura e composto numa ortografia universal.
MANUEL LEAL
CONSULTOR EM PSICOLOGIA - CLÍNICA DE EDUCAÇÃO
31 de Outubro de 2008 – Jornal da Madeira
A energia, a vivacidade e adaptabilidade da língua portuguesa no Brasil tem a ver com o fenómeno cultural que se define como "personalidade modal".
A língua de um povo não é apenas veículo de comunicação, mas mesmo um Rorshack nacional. É, simultaneamente, registo conceptual e pragmático em que se espelha o percurso histórico da sua gente e a sua evolução na jornada da modernidade.
No idioma reflectem-se a capacidade de adaptação planetária e ambiental do grupo e a sua habilidade de sobrevivência. Por isso as línguas também se podem observar em termos de processos darwinianos. Como as espécies que se perderam pelos caminhos da extinção, a linguagem projecta o futuro dos povos que neles se exprimem.
As línguas artificialmente tesas, arrogantes, impassíveis como estátuas revelam características conservadoras e imóveis, paranóicas e narcisistas dos seus falantes. Por outro lado, os idiomas irrequietos, activos na busca de significado e expressão simultaneamente abstracta e precisa possuem alegria, um charme persuasivo e mesmo sedutor.
O inglês como o falam os americanos ultrapassou a rigidez militar dos comandos anglo-saxónicos. Transformou-se no linguajar de um povo cheio de iniciativa, modificador do percurso do pensamento social e científico à escala planetária e da expressão de uma liberdade que lhe deu o lugar cimento na literatura, na arte, na ciência, na economia. Diz I love you (amo-te) e kiss me please (beija-me por favor) com afecto e doçura.
Assim é o português brasileiro, inaugurando vocábulos na rua para a gente se compreender sem a rigidez da aristocracia burocrática da academia e o etnocentrismo da assembleia política. Cria verbos sonoros, elegantes e práticos, petulantes por vezes, onde os substantivos antes saíam à rua, sós, nas frases longas, desnecessariamente longas e complexas, morosas. Uma sintaxe sujeita às regras confinantes e não raro desnecessárias de normas sociais e elitistas. Esse português vivo, estimulante, retrata a alegria de viver, a pujança no trabalho e na modernidade, o Brasil-potência-mundial que possui a coragem e ousadia de terçar ideias com outros povos, de expandir e dar significado cultural e económico, artístico e científico, à concepção da modernidade.
O português de Portugal recorda os galeões dolentes que deixaram nas praias orientais o pranto inconsolável, o papiá-cristão, abandonado, de populações marcadas nos traços fenotípicos e híbridos e nos genes resilientes dos mercadores de gente engolida pelo horizonte. Fala na TV como um soldado de chumbo, hirto como o cabelo banhado na brilhantina antiga. Conversa com maneirismos complexados, autoritário na interacção social e mesmo na comunicação governamental. Sua Excelência o Português é pretérito lacrimoso na voz embargada, plangente, do fado vítima do machismo, da explora- ção sexual e económica da mulher.
Em contra partida, o português do Brasil dança na rua. É cara risonho, engenheiro apressado, vaqueiro de camião gigante made in Brazil. Está na letra do samba bamboleante e atrevido, descomplicado. Expressa ritmo crioulo na música com seu falar sem hierarquia que o Você submergiu. Fala de amor e ternura no abraço de fenótipos na génese que os portugueses antigos criaram nos trópicos de Gilberto Freyre. É escrita de comércio possante, código fonológico e popular no jornal e voz cadente na rádio divulgando a notícia. Usa-o a moça desempoeirada, igualzinha ao homem no direito que antes a escravizou, nocauteante num bikini moreno em praia morna onde o machismo está acabando.
Roma morreu e o latim se enterrou nas igrejas. Fecham-no na clausura de pedras veneráveis e anciãs de monumentos guardando ecos côncavos nas abóbadas imperiais e distantes. Como as pirâmides dos faraós, em que cada eco subterrâneo parece enclavinhar à terra, desesperadamente, o desejo de todos os tempos no universo geracional de se ultrapassar a barreira misteriosa da eternidade para além da morte.
O português vai sobreviver, ainda que humilhado na Europa, reduzido à subserviência política e económica ao alemão e ao francês, ao inglês de sua majestade britânica. Vai perdurar, sim-senhor, nas chancelarias mundiais e nas universidades dominantes com sotaque brasileiro. Será língua dominante no comércio, de diplomacia, de estudo e difusão cultural e científica - graças ao Brasil.
No acordo ortográfico acerca do qual em Portugal se resmungou entre os dentes, paulatinamente, se o país deveria ou não aceitar, no desfecho dialéctico imperou a noção pensada da realidade. Na decisão política manifestou-se uma compreensão actualizada, decerto atenta ao resultado lógico dos processos de adaptação com que se conceptualiza o futuro no contexto do interesse nacional no embate nem sempre claro de forças globais.
Será de benefício actual e sobretudo futuro visualizar os povos falantes do português nos termos em que o Brasil se vê lusíada ou "filho de Portugal". Para que em décadas ainda vindouras se possa comunicar em português entre povos em cujo seio se identificam na História os actores da epopeia portuguesa num sentido social. E se edifique e fortaleça pelo Mundo um bloco de países irmanados por vínculos rijos que o modo de expressão comum cimenta, cada um com um léxico próprio ocasionado pelas peculiaridades específicas da cultura e composto numa ortografia universal.
MANUEL LEAL
CONSULTOR EM PSICOLOGIA - CLÍNICA DE EDUCAÇÃO
31 de Outubro de 2008 – Jornal da Madeira


Postar um comentário