MÍDIA E EDUCAÇÃO: PARADIGMAS DA CIDADANIA
Mauricio Ferreira da Silva
Mestre e Doutorando em Ciências Sociais pela PUC-SP
Professor Universitário
Há algum tempo atrás, num desses trajetos obrigatórios por uma das marginais da cidade, fui surpreendido por um sujeito que, ao descer de seu carro no carregado trânsito, jogou no rio um saco de lixo. Esta cena não só me chocou como me obrigou a uma análise mais profunda sobre tal atitude. O que teria levado aquele homem a fazer aquilo? Preocupado com a resposta levei para meus alunos esta problemática. Várias foram as contribuições e a cada nova aula sobre o tema mais me intrigava o fato.
Parece simples classificar aquele sujeito enquanto desviante de uma norma imposta: não jogar lixo no rio. Também parece simples classificá-lo como um sujeito que não trabalha de maneira adequada as informações necessárias para uma convivência harmônica no interior do grupo. Tal classificação me parece bastante óbvia e é justamente por isso que a inquietação se torna ainda maior.
O que todas as contribuições esquecem de frisar é que a probabilidade de que aquele homem saiba que o córrego causa enchente é muito grande, já que se tratava de um veículo da capital paulista num horário de pico. Nesse sentido o problema relacionado ao sujeito não se resume a um desvio consciente, mas também a uma questão de relação.
Ao meu ver o sujeito não conseguiu – ou não consegue – estabelecer relação entre o lixo jogado e a enchente. Para ele o rio quando transborda em nada tem haver com o lixo, portanto, a culpa pelo caos não é de sua responsabilidade. Enfim, a bituca de cigarro, o papel de bala, a lata de refrigerante ou de cerveja, o jornal, tudo isso jogado a qualquer momento terá o mesmo sentido que teve o saco de lixo: nenhum. Me parece mais preocupante a falta de relações que deveriam ser estabelecidas, pois trata-se de uma total ignorância do funcionamento da vida social e, ao ignorar isso, seu papel fica comprometido e extremamente perigoso para o bem estar do grupo.
No entanto a responsabilidade por esta realidade não pode ser destinada apenas ao indivíduo em questão, pelo contrário. Muito deve nos preocupar tal fato: erramos. Nós, sociedade, estamos errando de alguma forma.
Um dos sustentáculos no processo de formação do sujeito coletivo é a escola. Há muito vem sendo debatido o problema da precariedade do ensino de base no país. Além dos problemas estruturais – já bastante conhecidos – o governo do Estado lançou há algum tempo uma norma através da qual o estudante pode optar por uma área de futura atuação profissional e direcionar seus estudos neste sentido durante os últimos anos do ensino regulamentar; num claro gesto de incentivo ao ensino técnico.
Não se trata de criticar o empenho governamental na formação de futuros trabalhadores, o problema é que estamos formando mão-de-obra em detrimento de uma formação mais ampla, mais humanista e social. É importante termos profissionais capazes de competir no mercado de trabalho, mas não estaremos resolvendo o problema se estes profissionais não conseguirem estabelecer relações necessárias, se não conseguirem assimilar e compreender seu papel social. Sem isso correremos o risco de colocar estas pessoas no mercado de trabalho e não resolver o problema, por exemplo, da violência, a não ser que estejamos reduzindo o problema da violência para o desemprego. Pensar o sujeito apenas no local de trabalho, ignorando sua vida social, é inconcebível.
No mundo moderno a escola ganhou um auxílio no processo de formação: os meios de comunicação. Resultado das transformações tecnológicas surgidas no século XX, a mídia exerce um papel determinante na formação do sujeito coletivo. Todo este aparato técnico desenvolvido principalmente nas últimas décadas deflagra a importância do sistema de comunicação eletrônica na organização e controle da sociedade. Além de diversos fatores relacionados à mídia – que trabalharemos em outra oportunidade – um deve aqui ser ressaltado: a função de transmissor de valores. Esta capacidade de fazer parte do processo de formação faz com que a ausência dos veículos de comunicação seja inconcebível na complexa organização das sociedades modernas. Exemplo disso é que atualmente o mundo o mundo pode se comunicar de uma maneira bastante ágil e fácil, mostrando que a vida social tem nestes veículos um suporte necessário.
Sua importância é tanta que os governos reservam espaço exclusivo para administrar o funcionamento geral dos meios de comunicação. No Brasil além do Ministério das Comunicações, o Congresso Nacional possui comissões, o que em última análise significa que fica nas mãos do Estado o controle sobre seu funcionamento.
Algumas medidas tomadas recentemente pelo governo causaram polêmica e incitaram debates sobre o controle externo sobre os veículos de comunicação. Em uma dessas medidas o Ministério da Justiça ataca a participação de crianças em telenovelas noturnas, chegando ao ponto de cancelar a veiculação de capítulos em que essas apareciam. Além disso tramitam pelo Congresso Nacional diversos projetos de inserção neste meio, em um deles existe a proposta de estabelecer uma cota mínima de pessoas negras entre os contratados das emissoras, o que lhes garantiria uma participação maior na programação. Ora, e qual a intenção ao se propor uma cota mínima nos programas? É justamente a ratificação de que os veículos de comunicação possuem papel fundamental na formação do sujeito coletivo. Dessa forma uma exposição maior de negros na TV também em situações favoráveis, ou seja, próxima do seu cotidiano, se identificando, automaticamente inserirá outros conceitos aos seus valores sociais.
Uma medida como esta causa bastante furor entre os proprietários e os responsáveis pelas emissoras. Fica uma indagação no ar sobre a maneira de como a interferência estatal deve se proceder, o que não podemos deixar de admitir é a necessidade de algum tipo de controle por parte do Estado, isso em função do papel estratégico desempenhado pela mídia.
Os valores sociais transmitidos não podem ser tratados como uma mercadora qualquer. Em 1994 desenvolvemos pesquisa na PUC-SP tentando mostrar como isso se processa. O objetivo era apresentar um desenho animado enquanto instrumento constituinte da formação do público. Podemos constatar que muito do que se veicula são valores que, quando introjetados, formam o sujeito. Assim, uma estória em quadrinhos pode representar muito, principalmente às crianças que, via de regra, estão formando sua mente coletiva. Uma estória carregada de violência transmitirá valores neste sentido. Muitos defendem a tese de que nem sempre isso ocorre. Ao meu ver o problema está justamente aí, ou seja, no fato de não sabermos exatamente o impacto que este tipo de programação trará futuramente para o indivíduo A ou para o indivíduo B. Eles são diferentes, claro, mas não podemos negar que tanto A quanto B estão propensos a introduzir estes valores, e isso já é o suficiente para defendermos um determinado controle.
Não se trata aqui de defender a estatização dos meios de comunicação enquanto solução, trata-se antes de fazer a leitura correta do papel que este segmento desenvolve e do potencial que possui. Tratar os meios de comunicação dentro de sua especificidade significa, mais adiante, entender que eles podem e devem ser importantes instrumentos de formação e, como conseqüência, auxiliar o seu público a estabelecer as devidas relações, tornando-os cidadãos não apenas no consumo, mas também no comportamento social.
Mauricio Ferreira da Silva
Mestre e Doutorando em Ciências Sociais pela PUC-SP
Professor Universitário
Há algum tempo atrás, num desses trajetos obrigatórios por uma das marginais da cidade, fui surpreendido por um sujeito que, ao descer de seu carro no carregado trânsito, jogou no rio um saco de lixo. Esta cena não só me chocou como me obrigou a uma análise mais profunda sobre tal atitude. O que teria levado aquele homem a fazer aquilo? Preocupado com a resposta levei para meus alunos esta problemática. Várias foram as contribuições e a cada nova aula sobre o tema mais me intrigava o fato.
Parece simples classificar aquele sujeito enquanto desviante de uma norma imposta: não jogar lixo no rio. Também parece simples classificá-lo como um sujeito que não trabalha de maneira adequada as informações necessárias para uma convivência harmônica no interior do grupo. Tal classificação me parece bastante óbvia e é justamente por isso que a inquietação se torna ainda maior.
O que todas as contribuições esquecem de frisar é que a probabilidade de que aquele homem saiba que o córrego causa enchente é muito grande, já que se tratava de um veículo da capital paulista num horário de pico. Nesse sentido o problema relacionado ao sujeito não se resume a um desvio consciente, mas também a uma questão de relação.
Ao meu ver o sujeito não conseguiu – ou não consegue – estabelecer relação entre o lixo jogado e a enchente. Para ele o rio quando transborda em nada tem haver com o lixo, portanto, a culpa pelo caos não é de sua responsabilidade. Enfim, a bituca de cigarro, o papel de bala, a lata de refrigerante ou de cerveja, o jornal, tudo isso jogado a qualquer momento terá o mesmo sentido que teve o saco de lixo: nenhum. Me parece mais preocupante a falta de relações que deveriam ser estabelecidas, pois trata-se de uma total ignorância do funcionamento da vida social e, ao ignorar isso, seu papel fica comprometido e extremamente perigoso para o bem estar do grupo.
No entanto a responsabilidade por esta realidade não pode ser destinada apenas ao indivíduo em questão, pelo contrário. Muito deve nos preocupar tal fato: erramos. Nós, sociedade, estamos errando de alguma forma.
Um dos sustentáculos no processo de formação do sujeito coletivo é a escola. Há muito vem sendo debatido o problema da precariedade do ensino de base no país. Além dos problemas estruturais – já bastante conhecidos – o governo do Estado lançou há algum tempo uma norma através da qual o estudante pode optar por uma área de futura atuação profissional e direcionar seus estudos neste sentido durante os últimos anos do ensino regulamentar; num claro gesto de incentivo ao ensino técnico.
Não se trata de criticar o empenho governamental na formação de futuros trabalhadores, o problema é que estamos formando mão-de-obra em detrimento de uma formação mais ampla, mais humanista e social. É importante termos profissionais capazes de competir no mercado de trabalho, mas não estaremos resolvendo o problema se estes profissionais não conseguirem estabelecer relações necessárias, se não conseguirem assimilar e compreender seu papel social. Sem isso correremos o risco de colocar estas pessoas no mercado de trabalho e não resolver o problema, por exemplo, da violência, a não ser que estejamos reduzindo o problema da violência para o desemprego. Pensar o sujeito apenas no local de trabalho, ignorando sua vida social, é inconcebível.
No mundo moderno a escola ganhou um auxílio no processo de formação: os meios de comunicação. Resultado das transformações tecnológicas surgidas no século XX, a mídia exerce um papel determinante na formação do sujeito coletivo. Todo este aparato técnico desenvolvido principalmente nas últimas décadas deflagra a importância do sistema de comunicação eletrônica na organização e controle da sociedade. Além de diversos fatores relacionados à mídia – que trabalharemos em outra oportunidade – um deve aqui ser ressaltado: a função de transmissor de valores. Esta capacidade de fazer parte do processo de formação faz com que a ausência dos veículos de comunicação seja inconcebível na complexa organização das sociedades modernas. Exemplo disso é que atualmente o mundo o mundo pode se comunicar de uma maneira bastante ágil e fácil, mostrando que a vida social tem nestes veículos um suporte necessário.
Sua importância é tanta que os governos reservam espaço exclusivo para administrar o funcionamento geral dos meios de comunicação. No Brasil além do Ministério das Comunicações, o Congresso Nacional possui comissões, o que em última análise significa que fica nas mãos do Estado o controle sobre seu funcionamento.
Algumas medidas tomadas recentemente pelo governo causaram polêmica e incitaram debates sobre o controle externo sobre os veículos de comunicação. Em uma dessas medidas o Ministério da Justiça ataca a participação de crianças em telenovelas noturnas, chegando ao ponto de cancelar a veiculação de capítulos em que essas apareciam. Além disso tramitam pelo Congresso Nacional diversos projetos de inserção neste meio, em um deles existe a proposta de estabelecer uma cota mínima de pessoas negras entre os contratados das emissoras, o que lhes garantiria uma participação maior na programação. Ora, e qual a intenção ao se propor uma cota mínima nos programas? É justamente a ratificação de que os veículos de comunicação possuem papel fundamental na formação do sujeito coletivo. Dessa forma uma exposição maior de negros na TV também em situações favoráveis, ou seja, próxima do seu cotidiano, se identificando, automaticamente inserirá outros conceitos aos seus valores sociais.
Uma medida como esta causa bastante furor entre os proprietários e os responsáveis pelas emissoras. Fica uma indagação no ar sobre a maneira de como a interferência estatal deve se proceder, o que não podemos deixar de admitir é a necessidade de algum tipo de controle por parte do Estado, isso em função do papel estratégico desempenhado pela mídia.
Os valores sociais transmitidos não podem ser tratados como uma mercadora qualquer. Em 1994 desenvolvemos pesquisa na PUC-SP tentando mostrar como isso se processa. O objetivo era apresentar um desenho animado enquanto instrumento constituinte da formação do público. Podemos constatar que muito do que se veicula são valores que, quando introjetados, formam o sujeito. Assim, uma estória em quadrinhos pode representar muito, principalmente às crianças que, via de regra, estão formando sua mente coletiva. Uma estória carregada de violência transmitirá valores neste sentido. Muitos defendem a tese de que nem sempre isso ocorre. Ao meu ver o problema está justamente aí, ou seja, no fato de não sabermos exatamente o impacto que este tipo de programação trará futuramente para o indivíduo A ou para o indivíduo B. Eles são diferentes, claro, mas não podemos negar que tanto A quanto B estão propensos a introduzir estes valores, e isso já é o suficiente para defendermos um determinado controle.
Não se trata aqui de defender a estatização dos meios de comunicação enquanto solução, trata-se antes de fazer a leitura correta do papel que este segmento desenvolve e do potencial que possui. Tratar os meios de comunicação dentro de sua especificidade significa, mais adiante, entender que eles podem e devem ser importantes instrumentos de formação e, como conseqüência, auxiliar o seu público a estabelecer as devidas relações, tornando-os cidadãos não apenas no consumo, mas também no comportamento social.


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